terça-feira, 26 de novembro de 2024

Tantas

 Toda mulher já sofreu abuso

foi usada ou diminuída

por um homem sujo


Toda mulher já se queimou na fogueira

Estas são as marcas de uma feiticeira


Culpada

Afinal Eva comeu a maçã

Síndrome de impostora

vida vã


Não puderam prendê-la em casa

demonizaram seu corpo

a armadilha perfeita

Algemaram sua mente, sem voo


Entre as frestas do silêncio

de milênios, uivamos

e nosso canto é taxado:

Louco


Mulheres que se colocam:

agressivas

As que se resguardam:

são pouco


Não somos santas, nem antas,

somos tantas….


Manchadas, Taxadas

A que gosta de sexo: é puta

No volante: a vaca

Em casa sempre: a chata

Se luta por seus direitos: encrenca


Se não cuida da aparência: sapa

Escorrega no discurso: burra

Se dá última palavra: estúpida

Se ganha mais que você: fuja


Na TPM: de lua

Na menopausa: vencida

Com opinião: megera

Lavando o chão: contida


Resistir é o jeito: Luta


Cuidadoras do mundo

São mães e pais juntos

Suportam dores profundas

Estupros diários

População carcerária



Dá vez pro outro

nunca chega sua hora

Mas se toma a frente:

a barraqueira do rolê



Não somos santas, nem antas,

somos tantas…

Não somos perfeitas, nem errôneas,

somos humanas…


Não somos heroínas, nem loucas,

somos verdadeiramente lindas…

Não somos escravas, nem donas,

amar muito é nossa sina…


Não somos burras, nem mudas,

sabemos e damos frutos.

Não somos bestas, nem frutas,

mas podemos e gozamos muito.


quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Água

ver a vida que

não se contém em mim e em si

escorrendo, água


entre dedos vai

margeando encostas

transpassando poros


se demora pouco

num recipiente e

logo vai pra outro


não dá pra conter

mas é pegar ou largar

presente sem fim 


passado rápido 

no futuro é fluxo

voltado pro nada 


serpenteia em mim

ouroboros de novo

Pulsa Pisca e Fim

sábado, 24 de agosto de 2024

Asas de Água na Terra Dançam


As asas de Isis

Os olhos de águia

Meu radar pulsa


As águas de iris

O peito escalda

sobre meu pulso

Corujas acordam de noite

com lampejos de cura


As patas gigantes

As garras possantes

Preta como nossos ancestrais

Meu chacra básico te necessita

Mas às vezes você foge, distante


Esta Terra tão árdua de viver

Esta terra tão nua e verdadeira

Me traga pro chão

Pra eu ser este corpo

desta vez, nesta vida

minha pantera


negra, ligeira, articulada

onde está você?

necessito te tanto

dançante, terrena, astuta

me conceda seu manto

solitária, sábia, distante


Asas de Água na Terra Dançam

girando no rolê,

gira que gira, que gira, hein?!

A gira LGBT


Asas de Isis na Terra Dançam

são meus olhos pra você

gira que gira que gira, hein?!

jornadas que não passam na TV


Asas de iris na Terra Dançam

são minhas garras, namastê

gira que gira que gira, hein?!

agora voo por aqui

e ninguém pode me conter


Asas de coruja-de-torre-branca

estão te vendo de longe

assoprando folhas em seu coração

alturas são o mesmo que profundezas

meu bem, no inverso da razão


Não vou te iludir como um pavão

Não vou te ferir com um dragão

tô de boa aqui, mesmo com devastação

seguimos na busca,

quem sabe a Terra tenha solução? 


quarta-feira, 27 de março de 2024

Sódá Mulhé

 Sódá Mulhé


Marinês no gogó

Drik dá o show

Milena dança

Marta chuta

é gol


Eu vou te falar

Que as minas

Tá prosa pra lascar

Quero ver o baile daqui umas gerações

Mulhé com muitos anos de experiência nas conduções

Dominando os rolê,

Os homi vão fazer fila e pagá práprendê


Não tem pra ninguém

Quando a gente se coloca

Meu bem

Você fica com medo, né?

Por isso aprisionou 

Nossa genialidade em casa.


Noix somas o poder latente do ventre

as Amazonas do Brasil

Mexo a raba, conduzo a dança

a vida, e tudo o que eu quiser, viu?


Força e coragem

Não tem pra super-herói

Não tem passar pano pra boy

Noix que é poderosa


Se desdobrando em várias

Versões

Balança a raba, 

Frita rabanada,

E ainda dá conta

De fazer uns sons


Pega as crianças na escola,

Dá banho e vê a lição

Faz o corre e traz dinheiro para casa

e ainda consegue

Subvertê a visão.


Noix somas o poder latente do ventre

as Amazonas do Brasil

Mexo a raba, conduzo a dança,

a vida, e tudo o que eu quiser, viu?


Você não vai cortar minhas asas,

Nem vou passar pano para você

Há milênios sou silenciada

Só danço hoje se for no meu rolê


Agora fica quieto e pega a visão

Eu dou pra você porque eu quero

E quando não der, dou tchau com a mão

Desvalorização, eu não tolero

Quero ver se tu aguenta mulherão


Falei pra você que eu mudei

E o tempo mudou comigo

Ser eu mesma pra mim é lei

Você vem depois porque aqui não tem rei


Noix somas o poder latente do ventre

as Amazonas do Brasil

Mexo a raba, conduzo a dança

a vida, e tudo o que eu quiser, viu?


Seguimos na aldeia das leoas

Não te chamo de pai, nem de tio

Nesta terra só senhora é patroa

Vai logo com a curva dos reels


O raio que partiu

me tornou Fênix

Chupa esta manga

lava a louça

e se manda


Noix somas o poder latente do ventre

as 

Amazonas do Brasil

Mexo a raba, conduzo a dança

a vida, e tudo o que eu quiser, viu?


2023

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Sou Foada

 ando depois de vazios

vazios absolutos são necessários

universos sem dimensões

sem cheiros sem cores

sem formas nem sons


caminho neste deserto

acompanhada da solidão

das dores e das alegrias

da minha alma antiga

não é ruim nem é bom


respiros

suspensões

ausências

para ser


sou fora de moda

sou fora do tempo

antecipo tendências

sou catavento


passado presente futuro

sou sem linha do tempo

sem noção espacial

danço sobre galáxias

que invento


tenho muitos admiradores

pessoas deslumbradas que colam em mim

ilusões, likes e rolês

preenchem a vida com avalanche

de informações externas ao ser

sempre achei besta ser tiete


prefiro chão a porcelanato

sou poucas palavras

e gosto do meu quarto

prefiro silêncio compartilhado

e quilômetros rodando no asfalto


rodovia de interior

andar, parar e dormir

com os grilos ao redor

vagalumes estrelas

barulho pingando

na barraca chuva

da madrugada malaca

cheiro de mato tocando

minha pele com marcas


antissocial

não cultivo amizades

mas gosto de esquilos

sou um pouco a sherazade

das desistórias dos mamilos


sofro de sincericídeos

numa hipócrita sociedade

que vive passando pano pra rico


sou soul e só paz

mas se mutuco me morde

Oya grita tanto que arde

não tem boi pra boy

vem todas as bruxas em alarde

este enxame pode te come

pra enjoy das cumade


O mundo sempre foi podre

e eu também tenho os meus

mas eu cultivo minhas ervas

minha arte e minhas rezas,

entendeu?


Dizem que sou estranha,

fora das curvas dos reels

durmo mais de 10 horas

na terra da produtividade vil

rego minhas plantas todos os dias

espero e medito com afinco

ouço velharias no vinil 

posso ser queer

mas não tenho validade

sou foada e valho por mil


meu super poder

é ser slow e ter minha ancestralidade

é não dar conta da vida

e às vezes ser pela metade

meu super poder é ser autêntica

e isso que você deseja na verdade


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Re in Vento

 E foi assim que nos reencontramos...


Depois de 76 luas ou 80 luas, ouroborus.


Umas aves nascem pra voar,


Mas mandacarus sempre resistem.


Axé, Oxum, Oxumaré


Tem seca no asfalto

Tem sede no agreste

Só a soja sorri no cerrado

E a fome na barriga da gente


A tristeza habita a alma do mato e nós também viemos de lá


Mas entre trincheiras, guerreiras se abraçam


Entre pipocos, pipocas

E o ventre se enche

de muita alma


Na tempestade dos anos desperdiçados

No arco-íris do fim do mundo

Debaixo das máscaras encontramos

O Ouro 


Ahow, Namastê

Uma cesta de romãs para você


Aloha, amém,

bença Abaeté


Salamaleiko, saravá, gozaimasu, amana


Isso é o Forró que faz,

Mulher,

Vem do terreiro mestiço,

Pra te abraçar,

No meio da chuva brava,

Nosso patuá.


Salve Nanã, salve Obá

Salve Jurema, Salve Iemanjá,

Salve Nossa Senhora Aparecida

e todas as deusas perdidas

que vem nos abençoar


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Texto escrito por iris De franco para Fê Squariz e Mayra Kreysy


Nosso primeiro encontro depois do dilúvio 👻👻👻

29/11/2021


Sobrevivemos!


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Grafite em andamento no ateliê do

Mandalas a Fio

pintado por

dos Confins do Mundo


#grafite

#mandacaru

#ouroborus

#forró

#abraço

#mulher

quarta-feira, 19 de maio de 2021

O milagre do vinho

Eu perdi uma vida de mentira.
Eu vivi uma vida de verdade.
Por opção uso minhas coisas até o fim.
Se sobra vinho, posso fazer vinagre.

Eu não jogo, mas frequentemente
(me) perco e (me) ganho.
Minhas trilhas eu mesma desenho,
trato de colorir muitas flores,
para eu cheirar e lembrar
que a vida é um milagre.

Exerço o ofício de Ser,
mas me distraio às vezes com tarefas
Preciso crer para ver,
mas tem horas que creio com pressa.

Trabalho melhor no ócio.
Vivo intensamente quando durmo.
Meu tempo é só meu, sou de verdade,
Sou só eu e assim sou toda a eternidade.

28/04/2020