quinta-feira, 30 de março de 2017

São paredes de pedra
São janelas de pedra
São muros altos de pedra
E são portas frias de aço

Um dia quis escalar
estes muros de pedra
e roubar as chaves
destes portões de aço

Procurei uma charada
uma prova de fogo
ou pelo o moço mau
que guarda a porta trancada

Um dia quis te surpreender
despido
de tua armadura de ouro
de tua coroa preciosa
de teu anel de sultão

nu
nadando de frente
no rio
no meio da mata
onde ninguém é mais que um animal

Mas hoje vejo
que eu quis mesmo
tua escalada com desejo
até meus muros altos
para surrupiar meu vestido
quebrar minha concha com sua espada
e rasgar meu sutiã como bandido

Surpreendendo-me
de costas
sobre pedra do rio
sob a luz do canto
das águas
onde eu sou mais enteal

Porém me arranhaste somente as meias
e ao invés de roubar-me as vestes
sugaste minhas veias
trouxeste-me uma pesada armadura
para lutar os jogos dos homens
ao invés de servires a mim o elixir dos deuses

A couraça de guerra
era para ser um presente?
Onde no amor eu desejo a paz,
logo me tornei ausente
Pois só despejo pimenta
em meu tacho de doce
se meu convidado
sentar-se comigo à mesa
sem coroa, nem chapéu

Daqui, das pequenas frestas,
das janelas
do meu muro alto de pedras
te observo distante
atrás de distrações corriqueiras
guerrilhas, caçadas infames
não posso mais seguir adiante

Apenas recordar mórbida
as ausências
minhas e suas
e cuidar
Para que estas paredes de pedra
para que estas janelas de pedra
para que estes muros altos de pedra
para que estas portas frias de aço
sejam menos hostis e mais astutas
menos toscas e mais maduras
mas que continuem
sempre puras

Porque o mundo precisa
de nossas águas claras
para as verdadeiras guerras

A alma necessita
despir-se da armadura
e respirar apenas
paz, acalento, pintura

Os muros e as portas
só servem aos inimigos
aos queridos sirva
café com bolo
quente, por favor.



quarta-feira, 29 de março de 2017

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O amor
que você não
me deu
é todo seu
E o amor
que não
dei a você

é todo meu
E nesta vida de posses
falta troca
que este encontro
seja de todo
e não de partes
cruel
é estar
olho no olho
sentados
de pernas cruzadas
no chão
e nossas bocas
sedentas
proferindo este silêncio

essa conversa muda
me desconcerta
vai chegar o tempo
ponto
neste bla bla bla
de te agarrar
com ímpeto
e de dizer
com a voz na tua língua

não sem acaso
aquela mudez de "Dois Mundos"
palavras que se contorciam
pelo corpo tenso
da ilustre mulher

o meu
dança
também
e sussurra

o que minha saliva abundante
teima em não te contar


que o mar
me abençoe
porque aqui
da beira
esta espera
já dura mais
que uma vida
inteira

que amar
contenha
mesmo
todo o mar

e viver
todo o ver

e que esta tristeza
seja só
uma correnteza
de passagem

que esta riqueza
não dure
mais que o instante
de aprender

de apreender
o dna da água corrente
em minhas mãos
do rio para o mar

e incorporar
este fluir
tem corpo, mas tem ar
então posso ir

possuir corpo
e poder voar
possuir eu mesmo
e andar a esmo
sabendo que vou
certa

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

a crueza cruel
desta mudez
risca-me toda
por dentro
mas que eu faça juz
a minha macheza
e não cometa
nenhuma insensatez