terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

o barco que perdi
era rosa, mas o que
vem vindo, vermelho
o mundo que sonhei
era prosa, mas o que
tem aqui, só silêncios

o sol, às vezes sacode
minha janela
a vida nem sempre
tem sela

o vento vem devagar
os barcos flutuam
não vejo carmim, espero
noto em mim ausências
lares desfeitos, sem desespero

mora no centro, uma paz
do tamanho do meu silêncio
alteio o olhar até a água
para me levar a correnteza
ainda não veio, tem mágoa
presa nos meios, sem palavras
sem rosas, nem galanteios

Nesta sala,
onde o tempo não existe, ou foi suspenso.
onde invertem o senso e a posição dos pés.
Aqui, às vezes encontro meu silêncio, porque
talvez se tenha ido a época a que pertenço
ou meu vestido não sirva mais para este baile
e minha paz flameje mesmo no deserto vazio e denso.




Na outra sala,
toquei num bordado de Penélope, um lenço
de cambraia fina como a minha
vidaeasua
Aqui, duas pessoas nunca se encontram,
mas, talvez, além,
onde a alma faz uma sombra,
tenha sol.


tem horizontes que aprisionam
mesmo quem não é bandido.
há umas portas que dão no infinito,
outras ainda vão além.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017



a cada partida
um botão não abre,
privado de vida.
desaba na terra
antes de ser
o que teria sido.

e de tantos abortos e mortes
e tantos medos contidos
de tanto chacoalhar a sorte
no liquidificador de plástico
dos botequins das esquinas
sua tez virou craca de pé
e o tesão virou jaca no chão

perfumando os quintais interioranos
com aroma da podridão das quedas
filha do seu ventre decrépito e profano
com o sal que você semeia sempre
ao pisar em terra alheia, sem dó
nem entranha nem alma,
roubando qualquer inocente
você segue.

esta faca com cabo entalhado
tem capa de prata incrustada
de brilhante, jade e esmeralda
fica a todo instante de pronto
em sua cintura gingada

quem te protege e te fecha
o corpo para profanidade
e te concede insano
passaporte para a maldade?
É Baco, Zeus, Hades?

esta coroa enrustida
louca para se mostrar
em pintura
ela não se mistura

uma morjana vai um dia
dançar divinamente
e te inebriar, de repente
de baco de noite no vento
vai te contar histórias
de cropped
vai te amarrar no tempo
e te levar a memória

quando estiver no seu auge
luxúria, dinheiro, poder
vai te furar com seu sabre
do lado esquerdo,
certeiro, o sangue vai ser
vermelho,
como gente, sentido,
inteiro.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Até nossas brigas
são em terceira pessoa

Veladas, Discretas, Contidas

Será que um dia
Vamos nos dar as vísceras
E as mãos
Ao invés de trocar
amenidades e deselogios
nas entrelinhas dos bares?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

tudo que tinha dentro molhou


minha blusa, meus papéis.
meu baralho, meu peito.
meu rg, meus mil réis.
reis nos ralos, frio sem blusa.
baralho com previsão obtusa.


meu pão com queijo
minhas chaves
meu batom, ficou ileso
sequei o espelho na calça
e saí de vermelho,
pela praça.

entrevista

fortes e fracos têm segredos
se você não está pronto para
desvendá-los, não os cutuque
uma fera pode te engolir inteiro.


eu não escrevo sempre a verdade,
só o que sinto.
invento muitas histórias,
mas todas muito sentidas,
com construção de personagem,
não minto.


foi em 2018
não deu dinheiro
mas deu língua,
tiro certeiro.


são ocultos,
pois ocultos não se contam
com números, nem letras
só com sentimentos mesmo,
incomensuráveis.


nem inteligente, nem burra
nem bonita, nem feia
nem tesuda, nem sem sal
mas com cabelo azul, né?!


um pouco santas, um pouco mães, um pouco outras, quem quiserem ser


falem mais foda-se
e fodam mais.
Amores líquidos
Encontros gasosos
Mágoas sólidas


Egos frágeis
Inconscientes transbordantes
Consciências pesadas


Amores frágeis
Mágoas transbordantes
Desencontros estáveis


Identidades volúveis
Apegos egoicos
conta líquida pinga bruta
conta líquida pinga bruta
líquida pinga bruta
pinga bruta
pinga bruta