Morei em muitos lugares na vida, mas nasci em Pinheiros e foi lá que todas as minhas paixões e amores afloraram. Entre um beijo e uma aventura,c surpresas, descobertas e aprendizados, muitas cores vivas, pinturas, danças e transas, um samba na calçada do Ó, naf Pérola, no Julinho.
Pinheiros era um bairro de casinhas antigas, ateliês artísticos e botecos esquerdistas onde a gente comia um prato de macarrão por 10 reais, discutia política revolucionária e se vestia nos brechós baratos.
Quase 47 anos depois, silhuetas de prédios altos e sem personalidade assombram transeuntes pálidos na Gotham City, lojas cospem o fogo do capetalismo das marcas no bolso de quem passa por suas calçadas, telões de bares gigantescos alienam as conversas reais junto aos celulares e se você quiser tem milho na rua sim por 15 reais uma espiga.
28 anos de feijão com farinha, do KVA ao Remelexo meu Forró ganhou sustança, até o Canto já foi minha casa um dia. Pinheiros, lá se concentrava todo circuito de São Paulo, de onde o Circuito Sudestino se espalhou para o mundo, lá tava meu coração, minha cabeça, meus pés, onde minhas mãos escreviam planos.
O Forró se descentralizou junto com a gentrificação do bairro, eu também me descentralizei. Me mudei tanto de casa que se nota o cansaço em meus olhos.
Morar longe do meu bairro é como estar no estrangeiro, mas o fato é que meu bairro já não existe mais, mesmo que seus forrós resistam junto ao cine da Fradique, à Benedito e ao Ó.
O exílio tem gosto de marginalidade, assim como a velhice é desbotada, sem saída, um decreto de prisão, uma morte em vida.
Pinheiros perdeu sua autenticidade e eu, meu brilho. Me restou a capacidade de amar e quem sabe me apaixonar em outros bairros por estes novos forrós, por estas novas pessoas, por esta nova cidade acho que não consigo me apaixonar, afinal de contas o Franz Café já foi moda e era cool como eu.
Revisitar memórias não significa muito para mim. Dizem que na velhice tudo que importa são as memórias. Talvez então eu não esteja tão velha assim. Talvez conectado a Pinheiros ainda esteja meu futuro. Eu me vejo sim habitando passado e futuro, mas eu habito de fato, os presentes. Se a gente existe em todos os tempos, me dói menos habitar o presente, porque tenho mais facilidade de lidar com ele, porque preciso pegar para ver.
O mundo é muito tátil para mim, as pessoas que passaram por mim ficam, mais que lugares, poros. Por isso eu habito o Forró, dançar faz a gente se transferir um pouco para cada par e assim a gente pode ser um grão de areia na praia do Universo, fazer parte do mistério da criação e se dissolver no todo como uma brisa que passa pelo mundo e deixa o desenho de um rastro. As danças desenham na gente, assim como as pessoas e os lugares que habitamos.
Mesmo no exílio, você sempre me inspira a continuar desenhando e me perdendo no mistério de viver.
Texto de 2025
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